O mito da atemporalidade na fotografia

Modelo pensativa sentada a beira da praia de Tambaú, Paraíba

Em meus estudos fotográficos, frequentemente me deparo com artigos, dicas e tutoriais que indicam ou demonstram como deixas suas fotos atemporais. O conceito per se já é algo questionável, mas o que motivou este artigo que escrevo é o caráter positivo, desejável e até mesmo quase que em tom de obrigação de que a boa fotografia tenha essa característica.

Além dos artigos online, o assunto já surgiu entre colegas e confesso que sempre me causou muito incômodo. Obviamente me peguei refletindo e resolvi compartilhar parte de minhas reflexões com vocês, principalmente aqueles que estão pensando em fazer uma sessão fotográfica seja ela de qual tipo for. Recomendo pegar um café ou uma água, este papo será um pouco mais longo que o normal, mas prometo fazer valer o seu tempo. 

O que é atemporalidade?

Segundo o dicionário, atemporal é o adjetivo usado para definir algo que não é afetado pelo passar do tempo, ou seja, algo que faça parte de qualquer época. A defesa da tal fotografia atemporal é de que seja um trabalho que possa ser admirado através dos anos, que não seja “cafona” nem se torne “brega” em algum momento.

Vamos começar os questionamentos pelas palavras “cafona” e “brega”. Poderíamos trocá-las por quaisquer sinônimos, o sentido já ficou claro para vocês. Precisaríamos primeiro determinar o que é brega e cafona na fotografia. Imaginando que seja possível, precisamos dizer a você, cliente e/ou modelo fotografado que seu gosto é brega e que a estética que você quer não é adequada. Com isso estamos dizendo que você vai pagar por um serviço, mas não vai receber o que lhe agradar, e sim o que o prestador de serviço achar que é o mais indicado. Nem preciso dizer o quanto isso é comercialmente problemático não é mesmo? 

Por que não é possível?

Vamos ler uma frase de um dos maiores fotógrafos de todos os tempos:

“Não fazemos uma foto apenas com uma câmera, ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos.”

Com esta frase, Ansel Adams quis dizer que todo o nosso repertório cultural é trazido no momento que fotografamos. Por isso é tão importante para todo fotógrafo consumir estes produtos de um modo diferente dos demais. Nós inclusive não estamos sozinhos nessa, a pessoa fotografada, seja uma modelo profissional ou uma pessoa comum que adquiriu uma sessão, também traz consigo uma carga cultura. Este conjunto de informações, esse choque de culturas é o que irá formar o resultado do trabalho.

Este conceito inclusive não é nenhuma novidade. O filósofo alemão Friedrich Hegel já no século XIX nos apresentava o conceito de Zeitgeist. Essa palavra estranha cuja tradução é espírito do tempo ou espírito da época tem como significado o conjunto do clima intelectual e cultural de uma determinada época. Se pensarmos na fotografia como uma forma de arte, uma expressão cultural, fica evidente que ela será diretamente afetada pelo Zeitgeist. Sendo assim, sua atemporalidade será uma tentativa de neutralidade que poderá ser mais ou menos bem-sucedida, mas jamais conquistada em sua totalidade. Ainda não está convencido? Deixe-me dar alguns exemplos:

Criando cenários (in)possíveis

Vamos pensar nos meios de tornar quase impossível detectar o momento no tempo em que a foto foi feita. O primeiro vilão neste cenário é a edição. Aliás, boa parte das críticas são dirigidas a ela, especialmente as edições estilo Tumblr, Matte e afins. Tudo bem, vamos deixar a edição a mais neutra possível. Imaginando que esta seja uma fotografia de casamento por exemplo, as roupas e especialmente os elementos de decoração já podem denunciar a época, no mínimo dar algumas pistas. 

Uma segunda forma seria construir uma sessão com esta intenção. Imagino que a primeira opção seja utilizar o preto e branco, e para garantir que não haja elementos entregando a data da sessão, vamos pensar em um nu artístico. Aqui chegamos no mais próximo possível do atemporal, afinal, o nu é uma das primeiras expressões artísticas e sempre foi representada em diversas artes ao longo da história. Mas vamos precisar também escolher a modelo com muito cuidado. Detalhes como a cor dos cabelos, se estes são naturais ou não e o próprio biótipo da modelo podem nos dar uma boa indicação da época em que o retrato foi feito. 

Então como eu havia falado, a atemporalidade real é algo tão difícil de se conseguir que fica a pergunta: será que isso é realmente uma característica positiva? Vale a pena tanto esforço e preocupação só para isso?

Quebrando o encanto

Com tudo que foi dito até o momento, podemos perceber que a tal atemporalidade não se refere literalmente a não identificar o tempo em que a foto foi tirada, mas a não utilizar uma estética que esteja dentro dos padrões deste tempo. Se o fotógrafo está realizando um trabalho autoral, ou fazendo uma composição de portfólio e ele valoriza essa característica, tudo bem. O problema é quando isso é vendido como uma característica de uma boa foto, coisa que não faz o menor sentido.

Foto da modelo Ariely Luna em preto e branco em uma rua do centro do Recife

Para evitar desentendimentos, o melhor é deixar claro com o profissional contratado qual estética você busca como resultado do trabalho e caso este profissional por qualquer motivo que seja não faça da forma que você espera, procure outro. O melhor conselho aliás seria: conheça o estilo do fotógrafo que você está contratando, desde composição até a edição. Fotógrafos dificilmente adaptam suas edições ao gosto do cliente, já fica a dica. 

Bem minhas amigas, este foi um artigo mais longo, mas foi necessário para a dimensão do tema. Me digam se gostam de artigos assim, mais completos e deixem nos comentários suas opiniões e experiências com o tema. Na próxima quinta estarei de volta com mais opiniões, mais ou menos polêmicas.

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