Equipamento melhor faz foto melhor sim

Seja você um fotógrafo, modelo ou apenas um amante da fotografia, já deve ter escutado várias frases de Autoajuda fotográfica. 

– Quem faz a foto é o fotógrafo, não o equipamento;

– É possível fazer fotos incríveis com pouco recurso;

– O melhor equipamento é o que você tem.

Não vou dizer que estas frases estão erradas, mas é muito comum que este conjunto de premissas levem algumas pessoas a conclusão equivocada que melhorar o equipamento não faz fotos melhores. Abaixo eu vou explicar como os argumentos lançados nas discussões em fóruns, e até em mesa de bar sobre este assunto nos levam a este pensamento equivocado.

As comparações não fazem sentido

Sempre que você tentar discordar dessa lógica e dizer que precisa de um equipamento melhor, alguém usa uma comparação absurda. Um bom exemplo é aquela velha pergunta: “Quem você acha que faria uma foto melhor? Sebastião Salgado com uma Cybershot ou você com uma Nikon D750?”. Vamos entender a estrutura dessa comparação. Parte do princípio que ainda que você tenha um equipamento de ponta, Sebastião Salgado fará fotos melhores que você.

Primeiro que essa proposição não é necessariamente verdade. Ela ignora a especialidade do fotógrafo, provavelmente um grande fotógrafo de newborn faria um trabalho melhor que o Sebastião nessa área. Segundo, não é com o Salgado que a comparação deve ser feita, mas com você mesmo. Vá na sua pasta de backups e procure a melhor foto que você fez com a sua primeira câmera, lente do kit e sem nenhum modificador de luz. Será que esta mesma foto não teria ficado ainda melhor com um equipamento com mais recursos? 

É um gancho para uma lição de moral

No fim das contas, a conversa termina com uma bela lição de moral que diz basicamente: estude fotografia e tire o melhor do seu equipamento. Acho muito válido, de fato temos muitos curiosos na fotografia que acham que são fotógrafos porque aprenderam (precariamente) a usar o modo manual da câmera. Fotografia é muito, mas muito mais que isso. Mas quando estamos falando de um fotógrafo que já sente que seu nível técnico está acima do que é possível realizar com o equipamento que ele tem em mãos?

A área de atuação, locais de trabalho, linguagem fotográfica, todas essas são variáveis que devem ser levadas em consideração na hora de trocar ou adquirir um novo equipamento. Quem ganha a vida com fotografia sabe o peso financeiro de cada decisão de compra ou upgrade de equipamento. Tudo que ele mais quer na vida é aumentar a renda sem fazer um investimento tão alto quanto um novo corpo ou uma lente prime. Se o profissional chegou ao ponto de decidir pela troca, pode ter certeza que ele explorou ao máximo as opções antes de pensar nisso. Se ele não o fez, está mais necessitado de treinamento em gestão de negócios do que um curso de iluminação. 

Equipamento não é só corpo e lente

Na maioria dos casos em que essa discussão vem à tona, as pessoas estão se referindo ao corpo ou a lente. Se você caro leitor estava atento à chamada do artigo, deve ter observado o uso da palavra equipamento ao invés de câmera. Um simples rebatedor pode modificar completamente uma foto, e custa por volta de R$ 150,00 no momento em que escrevo este texto. Quem não lembra do primeiro speedlight, da felicidade de não precisar estourar o ISO porque o ambiente estava muito mal iluminado? Se aproveitou o frete para comprar o radioflash então, felicidade em dobro! E aquele tripé bem simples, baratinho, mas que salvou o dia várias vezes nas festas e nas fotografias noturnas? Equipamento é mais do que corpo e lente, vale lembrar.

Recursos vão potencializar o que você faz hoje

Vou utilizar duas analogias bem simples para nós pensarmos fora da caixa:

– Se um lutador de 93kg que tem um bom direto ganhar mais massa muscular e chegar aos 100kg, naturalmente vai aumentar seu poder de nocaute. Mesmo que ele mantenha o mesmo nível técnico;

– Uma maquiadora consegue fazer um delineado perfeito e um belo olho esfumado com aquele material mais simples, vendido em qualquer farmácia. Se ela utilizar produtos da MAC ou de qualquer outra marca de ponta e fizer a mesma maquiagem, certamente o resultado será visualmente melhor.

Conseguimos entender essa lógica perfeitamente para outras áreas, mas criou-se um mito, uma mística tão grande ao redor deste tema na fotografia que parece descabido aplicar este mesmo raciocínio para nossa nobre arte. O ponto de atenção nos exemplos acima é o nível técnico da pessoa que executa a ação. Você fará exatamente as mesmas fotos que faz hoje, mas elas terão mais qualidades técnicas como ruído baixo nos ISOS altos, melhor nitidez no caso de lentes fixas, menores profundidades de campo entre outros detalhes. 

Fotos melhores não significa fotos boas

Se ainda não ficou claro no último ponto, vamos esclarecer. Fotos melhores não significa fotos boas. O que torna uma foto boa ou ruim daria outro artigo e outra polêmica ainda maior que essa. Mas vamos simplificar dizendo que uma foto que está de acordo com as principais regras da fotografia seja boa. Se o fotógrafo desconhece essas regras e as quebra sem entende-las, fará fotos ruins.

O ponto aqui é que mesmo essas fotos ruins terão melhor qualidade se o equipamento tiver mais recursos. Especialmente se você compreendeu que existem outros equipamentos além da câmera e das lentes. Se nada do que eu falei até agora te convenceu disso, olhe novamente a foto de capa deste artigo, tirada por um simpático macaco que fez um clique com a câmera do fotógrafo que estava registrando a vida dos macacos em uma reserva na Indonésia. Uma boa câmera pré-configurada foi o suficiente para o primata conseguir sua bela selfie. 

Este artigo foi um pouco mais extenso do que o normal porque o tema é sensível, e ainda renderia muitos parágrafos. Mas quero ouvir a opinião de vocês, o que acham sobre isso? Comentem e vamos continuar esse papo. 

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